Quem era a grávida que morreu após obstetra suspeito de ignorar chamados não ir ao hospital em MG
15/06/2026
(Foto: Reprodução) Sogra relata últimas horas de gestante que morreu à espera de obstetra em hospital de MG
A chegada do primeiro filho representava a realização de um dos maiores sonhos de Bárbara Luana Fernandes Aleixo. Aos 29 anos e grávida de 30 semanas, ela vivia um período de expectativa ao lado da família, que se preparava para receber Augusto Manoel.
"Era o sonho dela ser mãe. Ela amava criança", resumiu a sogra, Jusimara Ferreira da Silva Leite, de 47 anos.
Bárbara morreu na madrugada do dia 9 de junho, no hospital público de Três Marias (MG), juntamente ao filho que esperava. Ela deu entrada na unidade com suspeita de pré-eclâmpsia, mas, segundo a investigação criminal, o obstetra de plantão não compareceu na unidade enquanto o quadro da paciente se agravava.
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Desde então, a família tenta lidar com a perda da jovem, conhecida pelo jeito carinhoso.Segundo Jusimara, a nora era uma pessoa amorosa, que gostava de agradar quem estava ao seu redor e se sensibilizava com o sofrimento dos outros. "Ela sentia a dor do outro. Não brigava com ninguém, não tinha maldade e não desejava mal para ninguém", relembrou emocionada.
O advogado do obstetra, Higor Magid Lauar de Castro Vieira, destacou que a investigação ainda se encontra em fase inicial, razão pela qual a adequada compreensão dos fatos exige cautela e dependerá da análise de todos os elementos que vierem a ser produzidos e considerados pelas autoridades competentes. Leia a nota na íntegra ao final do texto.
O g1 também procurou o hospital para se manifestar sobre o ocorrido, porém não houve respostas até a última atualização da reportagem.
Planos foram interrompidos
Antes da gravidez, Bárbara trabalhou durante anos como atendente em restaurantes localizados às margens do Rio São Francisco e em estabelecimentos da região.
A rotina intensa de trabalho, segundo a sogra, a levou a pedir demissão do último emprego. Após deixar o trabalho, buscava uma nova oportunidade profissional. Chegou a prestar processo seletivo para tentar uma vaga na Prefeitura, e estava aguardando o resultado.
Ao mesmo tempo, comemorava conquistas pessoais. Ela tirava a carteira de motorista e ficou feliz ao ser aprovada na prova teórica. Com o avanço da gravidez, decidiu desacelerar e se dedicar à gestação.
'Eu vou morrer': sogra relata últimas horas de gestante que morreu à espera de obstetra em hospital de MG
"Ela brincava comigo: 'Ju, eu não vou trabalhar não. Minha profissão agora é gestar. Eu estou gestando'. Ela falava que agora era só cuidar do Augusto", recorda a sogra.
Para a família, a dor da perda se mistura às lembranças de uma mãe de primeira viagem que aguardava ansiosamente a chegada do filho, comemorava pequenas conquistas do dia a dia e fazia planos para o futuro que não teve tempo de viver.
Bárbara Luana Fernandes Aleixo, gestante morreu em hospital de Três Marias
Arquivo pessoal/Reprodução
Casal era amigo de infância
A história com o companheiro, Jônatas Leite, começou após anos de convivência. Eles eram vizinhos em São Gonçalo do Abaeté, no Noroeste de Minas, e amigos desde a infância. O relacionamento começou há cerca de um ano e, pouco tempo depois, descobriram a gravidez.
De acordo com a família, Bárbara e Jônatas compartilhavam planos para o futuro e gostavam de passar o tempo juntos. "Ela gostava de viajar, passear e estar perto do esposo e da família", conta Jusimara.
Os dois também planejavam construir uma vida em comum. Entre os projetos estavam a compra de um carro para ela e a construção da casa onde pretendiam morar. Os dois até dividiam uma coincidência especial: ela nasceu em 4 de dezembro de 1996 e ele, em 5 de dezembro de 1997, um ano e um dia de diferença.
Desde a morte de Bárbara e do bebê Augusto Manoel, a família acompanha o sofrimento de Jônatas. Segundo Jusimara, o filho ainda tem dificuldade para aceitar a perda da companheira, com quem compartilhava a rotina e os sonhos para o futuro.
Como as famílias moram próximas, ele frequentemente olha em direção à casa onde Bárbara vivia e chama pelo nome dela. Também passou a visitar o cemitério várias vezes ao dia para se despedir. "Está de cortar o coração ver o que meu filho está passando", diz Jusimara.
Polícia reconstituiu ordem cronológica de ligações
A Polícia Civil reconstituiu a sequência de tentativas feitas pela equipe médica para acionar o obstetra Higo Moreira Fonseca durante a internação de Bárbara, que estava escalado para o plantão de sobreaviso.
Segundo os depoimentos reunidos no inquérito, Bárbara apresentava sinais de agravamento do quadro clínico, compatíveis com eclâmpsia em estágio grave.
1ª tentativa (22h08) - os primeiros exames alterados: Segundo a investigação, ao dar entrada no hospital, Bárbara apresentava pressão arterial de 180 por 80 mmHg. A médica plantonista afirma em depoimento que enviou ao obstetra Higo Moreira Fonseca, por WhatsApp, os resultados dos primeiros exames. De acordo com os relatos reunidos pela Polícia Civil, Higo avaliou que os sintomas poderiam estar relacionados à ansiedade da gestante. Ainda segundo a investigação, ele afirmou que o caso não era de natureza obstétrica e, por isso, não compareceu ao hospital naquele momento.
Da 2ª à 5ª tentativa - mensagens e ligações durante a madrugada: À medida que o estado de saúde da paciente piorava e novos exames indicavam aumento do risco, a equipe médica afirma ter feito novas tentativas de contato com o obstetra por mensagens e ligações telefônicas. Segundo os depoimentos colhidos pela Polícia Civil, os profissionais informaram Higo sobre a evolução do quadro clínico e reforçaram a necessidade de sua presença no hospital. Ainda assim, de acordo com os relatos, ele permaneceu em casa.
6ª tentativa (por volta das 5h) - pedido de socorro diante do agravamento: Segundo o inquérito, Bárbara Luana apresentou uma piora significativa no quadro de saúde e precisou ser transferida para a Sala Vermelha. Diante da situação, a médica plantonista afirmou que fez uma nova ligação para o obstetra. Em depoimento, a profissional afirmou que tentou explicar a gravidade do caso. No entanto, segundo seu relato, o médico insistiu que o atendimento deveria ser conduzido pela equipe da clínica médica e encerrou a ligação.
7ª tentativa - nova ligação e última recusa: Logo após a ligação, a equipe médica fez uma nova tentativa de contato com o obstetra. Desta vez, uma técnica de enfermagem falou diretamente com o médico e também pediu que ele comparecesse ao hospital. Segundo os depoimentos reunidos pela Polícia Civil, o obstetra voltou a afirmar que não iria até a unidade.
Ainda de acordo com a investigação, às 5h17, enquanto a equipe tentava reverter o quadro crítico de Bárbara Luana na Sala Vermelha, o médico teria enviado uma mensagem ao grupo de WhatsApp do corpo clínico do hospital com o texto: "as pacientes gestantes com quadros clínicos, incluindo surtos psicóticos, sem queixas obstétricas, deverão ser conduzidas pela clínica médica".
A corporação aguarda os laudos médicos e do Instituto Médico Legal (IML) para confirmar a causa das mortes de Bárbara e do bebê.
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Médico chegou a ser preso
Higo Moreira Fonseca, médico obstetra e diretor clínico do Hospital de Três Marias
Reprodução/Redes Sociais
Segundo a Polícia Civil, o médico obstetra foi preso em flagrante e é investigado pela suposta prática de homicídio da gestante e do bebê. A investigação apura se houve omissão de socorro e negligência médica no atendimento da paciente.
Segundo a Polícia Civil, o obstetra Higo Moreira Fonseca teria tentado fugir no momento em que os agentes foram até sua casa para conduzi-lo à delegacia após a confirmação das mortes.
De acordo com os policiais, ele estava dentro de um carro e recebeu ordem para desembarcar, mas não atendeu imediatamente à determinação e engatou a marcha à ré, o que foi interpretado pela equipe como uma tentativa de evasão.
Diante da situação, uma policial civil sacou a arma para garantir a segurança dos agentes e impedir a movimentação do veículo, que acabou sendo interceptado em seguida. As informações constam no auto de prisão em flagrante no qual a reportagem teve acesso.
Após ser levado para o Presídio de Três Marias, o médico obteve liberdade provisória por decisão judicial no dia seguinte, mediante o cumprimento de uma série de medidas cautelares.
Entre as determinações, ele deverá comparecer mensalmente à Justiça, não poderá deixar a comarca sem autorização, nem frequentar o Hospital São Francisco ou manter contato com testemunhas e funcionários da unidade.
Além disso, teve suspensa cautelarmente sua atuação médica na rede pública de saúde, especialmente na área de obstetrícia.
O que disse a defesa do médico
"Manifestamos preocupação com a circulação de informações incompletas, especulações e conclusões antecipadas acerca dos fatos atualmente objeto de investigação. Inicialmente, registramos nosso respeito à memória das pessoas envolvidas e nossa solidariedade aos familiares que enfrentam este momento de profunda dor. É importante destacar que a investigação ainda se encontra em fase inicial, razão pela qual a adequada compreensão dos fatos exige cautela e dependerá da análise de todos os elementos que vierem a ser produzidos e considerados pelas autoridades competentes ao longo da apuração. Também é necessário esclarecer que a atividade médica em regime de sobreaviso constitui modalidade regularmente reconhecida e regulamentada pelo Conselho Federal de Medicina, não se confundindo com plantão presencial permanente nas dependências hospitalares. Trata-se de modelo amplamente utilizado em instituições de saúde públicas e privadas em todo o país. Da mesma forma, é importante registrar que o contexto assistencial objeto da investigação apresenta complexidade superior àquela que vem sendo retratada em parte do debate público, envolvendo circunstâncias e elementos que ainda serão devidamente analisados e esclarecidos no curso da investigação pelas autoridades competentes. A defesa reafirma sua confiança nas instituições responsáveis pela apuração dos fatos e recorda que a Constituição da República assegura a toda pessoa o direito à presunção de inocência, ao contraditório, à ampla defesa e ao devido processo legal."
Bárbara Luana Fernandes Aleixo e a sogra Jusimara
Arquivo pessoal/Reprodução
Hospital São Francisco, em Três Marias (MG)
Google Street View/Reprodução
Bárbara Luana Fernandes Aleixo, gestante morreu em hospital de Três Marias
Arquivo pessoal/Reprodução
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